Na semana passada, assisti ao O Cabaré das Martas, na praça Roosevelt, centro da cidade de São Paulo, como parte da programação do Satyrianas. É necessário uma nova escrita.


        Foram alguns motivos juntos que me incentivaram e potencializaram a vontade de escrever. Os primeiros: acontecimentos na própria apresentação e seus desdobramentos na minha semana. A outra: a leitura da obra Teatro (s) de Rua do Brasil – a luta pelo espaço público, da mestra Jussara Trindade e do mestre Licko Turle, que chegou aqui em casa uns tempos atrás. 


          As Martas são, por si, impressionantes. E esta palavra as define bem. Um grupo composto por seis artistas, que assumem os papéis de MestrAs de pista, malabaristas, musicistas, apresentadoras, monociclistas e passadoras de chapéu. Duo de cinco claves, o número de malabarismo de rebote com três, quatro, cinco, seis e sete bolas! Trapézio feito na rua, com um alto grau de dificuldade, acompanhado de um chorinho sendo tocado ao vivo, pela banda que também é parte do coletivo. É daquelas coisas que impulsionam um melhor entendimento sobre a função de se fazer arte na rua.


Mas vamos à dois motivos que ganharam o topo da lista de muitos deles. (Isso porque é o jeito que consigo me organizar para não ficar escrevendo o dia inteiro sobre a apresentação. E quando digo o dia inteiro, seria em suas 24 horas.).

O primeiro deles. Antes de começar (provando novamente que o espetáculo de rua começa antes do começo) o som estava longe, alguns metros da apresentação, o que dificultou a passagem de som e deu o horário de início e ainda haviam algumas questões para serem afinadas. Uma senhora, que estava bem perto de mim, com uma lata de cerveja na mão, iniciou a indignação pela demora do início, que nem era muito grande. Tentou puxar aquele coro clássico e gritado do "COMEÇA COMEÇA!" Foi quando uma das meninas ouviu e veio falar com ela. Foram vários choques de uma vez só para a senhora: " Nós já vamos começar, senhora. Se pra senhora está ruim de esperar, imagina para mim que não posso estar bebendo esta cerveja aí. Não vamos começar de qualquer jeito, sem passar o som, porque vai ser uma porcaria. Eu não quero fazer uma porcaria e a senhora também não quer assistir isso". A mulher nem respondeu. Compreendeu. O choque ali me pareceu que não foi pela mensagem, mas sim pela reação. Ela não esperava ter a resposta, não esperava que as Artistas ouviriam e viriam explicar a situação.

O "COMEÇA, COMEÇA!!!" demonstra impessoalidade, é um grito que já começa entoado para ser de multidão, para ter mais pessoas falando junto. Não é um grito solo. Só que a rua mostrou, naquele momento, que não existe uma parede invisível que irá isentar você no meio do público. Você é responsável pelo que grita, então, não grite qualquer coisa achando que isso não vai gerar uma reação. Sobre esse fato, sugiro uma reflexão sobre a humanidade que se coloca no espaço público para uma apresentação artística:


[André] Carreira identifica duas tendências no comportamento da humanidade na rua. “A primeira é a atitude de respeito às regras sociais dominantes e a segunda é a abertura ao jogo e à liberdade de ação. O equilíbrio entre a atitude social dominante e o jogo é dinâmico e se modifica de acordo com os processos socioculturais do momento”. Além de ter-se estabelecido, desde a Idade Moderna, como o cenário preferencial dos grandes conflitos políticos e dos movimentos que, até hoje, determinam tais regras sociais, a rua ainda mantém o caráter de território lúdico, cuja experiência mais marcante é a liberdade de jogo experimentada pelo indivíduo. (TURLE & TRINDADE, p.133)


         Porém, de maneira alguma quero sugerir que a rua é digna de silêncio para apreciação da arte, pelo contrário, a polifonia da rua é uma das coisas que mais me encanta. Sei que foi muito necessária essa intervenção, já que também ajudou que a gente tivesse algo para assistir ali, enquanto a apresentação não começava, de fato.

         Outro fato típico do teatro de rua: começou a chover, garoar, para ser mais exato. Só que era uma garoa que estava fina. E chegou no seu limite. Estava começando a incomodar, e algumas pessoas abriram seus guarda-chuvas. Tiveram que guardar. Tapava a visão da pessoa que estava atrás. Bom, se quer ficar na frente, toma chuva. Caso contrário, eu não vejo. Fim, conflito resolvido. Porque, no final das contas, é isso: o espetáculo de rua, o teatro de rua, nos coloca para dialogar com as pessoas que vivem na mesma cidade que nós, que são nossas vizinhas ou vizinhos, que, em um longo ou breve período, dividem o mesmo espaço e tempo.

         A chuva foi parando e o espetáculo continuou, como se soubesse que a chuva ia parar. Quando a chuva era um fato claro, uma das artistas pergunta ao público::"Vocês aguentam a chuva?!". E ouviu-se um longo: "SIIIIIIIIIIIIM!".       

         O fascínio desta abertura de conversa com o público é o que me faz escrever, essa horizontalidade, da pessoa que faz arte estar no mesmo chão de quem assiste, somos  todas e todos: a humanidade em convivência.


Pouco importa o lugar desde que os que aí se juntam tenham a necessidade de nos ouvir, e que nós tenhamos algo a lhes mostrar, e desde que este lugar seja animado pela força da vida dramática que está em nós. Se não sabemos para onde ir, vamos para a rua. Que nós tenhamos a coragem de mostrar que nossa arte não tem asilo, que não conhecemos mais nossa razão de ser e não sabemos mais de quem esperá-la. (CRUCIANI &FALLETTI, 1999, p. 21)


A praça Roosevelt corre para ser transformada em parque. Algumas moradoras e moradores não concordam com quem frequenta a praça. Não apoiam as apresentações, dificultam a execução de eventos de circo – os mesmos que ajudaram para que a praça fosse transformada em um outro lugar. O caminho poderá ser a transformação em parque, assim, a possibilidade de colocar grades ao redor e a privatização. Mais uma gaiola da priva(tiza)ção da liberdade dentro das cidades. Acredito que vale uma última reflexão nessa escrita, que também iniciei nas páginas do Teatro(s) de Rua do Brasil, no capítulo Os espaços simbólicos”, que apresenta a reflexão de que as pessoas que passam, andam de skate, passeiam, que vão se apresentar na praça, as que vão assistir e as que vão ali para não fazer nada [o que é  também fazer e também muito importante], é que fazem a praça. É a junção entre os fixos e os fluxos da cidade. Os fixos – suas estruturas físicas e os fluxos sendo – o uso que fazem deles seus habitantes.


Enquanto ‘manifestação do encontro e da festa’, o teatro de rua reforça no imaginário [da cidadã ou] do cidadão a praça como lugar do espetáculo (ainda que seja apresentado num daqueles ‘não lugares’), pois traz a memória ancestral da praça pública tanto como polis (o fórum público) quanto como local de troca (de mercadorias) e encontro (de experiências). Caminhando na contramão de um discurso politicamente correto sobre a cidade limpa, higienizada e ordenada, o teatro de rua recoloca o imaginário da praça no coração da cidade ao relembrar que a maior importância desta reside em sua função social e no seu usufruto pelo cidadão, e não numa suposta ‘boa’ imagem urbana de organização e assepsia. (TURLE & TRINDADE, p.46)


         Seguiremos ocupando. Enquanto público, quando apresentamos, quando vamos passear para distrair e conhecer a cidade em que vivemos. O teatro de rua, a arte enquanto manifestação de confraternização da humanidade, resistiu aos regimes, todos que conhecemos. Continuaremos juntas e juntos, pois, a cada dia, estamos com a voltagem cada vez mais alta, plantando e cultivando lugares públicos, para que brote cada vez mais arte em seus canteiros. 

 

            Quer saber mais sobre o trabalho Cabaré das Martas? Confere AQUI 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

CARREIRA, André. Teatro de Rua: Brasil e Argentina nos Anos 1980: Uma paixão no Asfalto. São Paulo: Aderaldo & Rothschild, 2007

 

CRUCIANI, Fabrizio& FALLETTI, Clelia. Teatro de Rua. Tradução de Roberta Baarni. São Paulo: Editora Hucitec, 1999

TURLE, Licko & TRINDADE, Jussara. Teatro(s)de rua do Brasil: a luta pelo espaço público. São Paulo: Ed. Perspectiva. 2016